Que chatice
Que clichê
A incerteza é difícil de acomodar, abraçar e nutrir. Custa deixá-la chegar a nossa casa, servir-lhe café ou chá, uns bolinhos e dar meia de conversa. Quero sempre matá-la mal a sinto - TOMA LÁ, SOCO, MURRO, PONTAPÉ, PUNHALADA NO RIM DIREITO, BAZOOKADA NA CABEÇA. O conforto do controlo é um vício, deixamo-nos ficar em coisas que não nos oferecem nenhuma oportunidade de nos conhecermos melhor, de vermos o mundo de outras formas, tudo porque preferimos saber exatamente os resultados de antemão e porque gostamos que as coisas sejam previsíveis.
Sair da zona de conforto torna-se um risco calculado. Até vou uns passos mais além e saio da caixa, vejo o que há por aí, mas raramente dou saltos de fé, analiso todos os possíveis cenários e ajo em concordância. Com o passar do tempo, deixa de haver mais como testar os limites e dançar com o novo, a piscina de crianças que o conforto era torna-se agora uma piscina de adultos com escorregas, jacuzzi e tudo mais.
Quanto mais nado, mais o “não sei”, o “sei lá” e o “pft” aterrorizam a minha pequena e quadrada cabecinha. Vejo esta forma de estar sempre com medo de não saber os próximos passos de tudo na minha vida como uma grande fraqueza, uma falha em mim como humana. Como assim não vou desbravar território? Não há demandas e a viagem do herói para mim? Só tenho direito a carreirismo mediano e desejos de possuir melhores objetos, quiçá ver um monumento ou outro. Nada de grandioso virá se me mantenho refastelada no conhecido, com a minha mantinha e o meu chocolate quente.
Quero aprender a amar o nim e as águas de bacalhau para poder tornar-me algo para lá deste pequeno ser tacanho que se deixa estar.


