Mal do desembarque
As náuseas de ser humano e ter de comunicar e amar.
Acredito que o amor seja um credo, um conjunto de convicções. A escolha de estar com alguém é feita e depois temos os dois de aceitar que estamos dentro desse sistema e vivemos agora como um conjunto de algo que resulta numa outra coisa. O desbravar da vida será, supostamente, feito a partir daí com menos solidão.
Comprometemo-nos a contar uma mesma estória e a fazer com que seja bonita, entusiasmante, animada e o menos atribulada possível.
Existe um molde dentro do qual nos devemos movimentar, para evitar causar dano e para seguir alguma convenção social, motivados por preguiça e por uma noção esbatida, guardada numa parte de trás da consciência, assim na nuca, de que o que é normal e subtil traz paz de espírito. E andamos nisto. Pés assentes no convés de um barco construído a duas mãos.
Este compromisso é impossível de cumprir, não importa quão cheios de boas intenções estejamos. Ninguém tem exatamente a mesma versão de uma ocorrência, independentemente de se a tiver vivido segundo a segundo partilhada, porque eu não sou tu e tu não és eu e as cores que eu vejo não são as mesmas que as tuas e a brisa que eu sinto não cheira tal e qual como te cheira a ti e se eu comer chocolate está tudo bem e se tu comeres chocolates pode ser que tenhas dores de barriga.
Entretanto, o marejar de experiências partilhadas vai enchendo uma baciazinha que se tem de esvaziar de vez em quando, para não transbordar. Há que aceitar as várias versões, parar de rever, examinar. E o barco vai, com buracos tapados a fita adesiva da forte, cinzenta, mar fora à procura de terra firme, para se poder “estacionar” e arranjar tudo o melhor possível.
Este sistema criado em conjunto, isto que continuamos a contar, tem falhas de enredo, inconsistências lógicas, reconhecidas e atestadas. Depois do mal do movimento vem o mal do desembarque. Há muito a depender dessa chegada a algum lado, mal definido como estabilidade, ou resolução. O confronto com os pés na terra de que esse local não existe, é duro. Vertigens em alto mar e vertigens em alta terra. A convenção não se aplica, na maioria das vezes. Ou então se calhar isto é o por trás da cortina do convencional. Há que continuar a viver quer em viagem ou em estase.
O que importa é nomear as cores e identificar a brisa e partilhar os nomes dados individualmente às coisas, descrever os cheiros. Garantir que como coisas que não me dão dor de barriga e não te obrigo a comer coisas que te causam mal-estar.
Embarcar e desembarcar com cuidado, combinar as histórias, reconhecer e atestar.



