Elas e os elos
As mulheres da minha família ficam defensivas quando são chamadas à atenção, a vergonha deixa-as combativas. Quando acham que ninguém lhes está a prestar atenção, falam mais alto, abafam os outros, perseveram e fazem-se ouvir. Negligenciam-se a si e aos demais, não escutam, só expelem. Na minha família, as mulheres bebem muito. Medicam-se com álcool. Luto, tristeza, novas etapas, dias difíceis, dias felizes, confusão, foco, dissipação, tudo vai desaguar ali. Vinho verde costuma ser o predileto. Descuram-se, a si e aos outros, deixamo-nos com o coração nas mãos.
Ainda assim, nunca se deixam cair, nem a si nem aos outros. Ficam por um fio. As mulheres da minha família estão todas por um fio. Não revelamos o fio por onde cada uma de nós está presa às outras e ao mundo, na sua totalidade. Gostávamos de juntar todos os fios, os de umas e de outras, para formarmos cordas e fazermos uma rede onde cair, como os trapezistas do circo. Para nos podermos deixar cair quando no nosso acto cometemos erros e a coisa corre menos bem. Ainda não conseguimos.
Quero ser delas e ser diferente, mas já sou como elas. Vou tentar fazer mais por conseguir cair segura.


